Ainda bem: reflexões de género
02/03/2016
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Ainda bem que quando olhas para ti no espelho gostas do que vês. Que bom que pertences ao grupo de pessoas a quem o género corresponde ao que no inicio da vida disseram que era o seu.

Ainda bem que é qualquer coisa que só de vez em quando te lembras, que tens corpo e que não és todos os dias, mesmo a todos os momentos confrontada com um corpo que não sentes ser o teu. Ainda bem.

O privilégio de se pensar o corpo como “ah que bom é mesmo isto que eu sou” não assiste a toda a gente. Mas ainda bem que nem todas as pessoas passam pelo tormento de ouvirem um nome com o qual não se identificam a toda a hora, ou convivem com pronomes que não sentem ser seus em todas as circunstâncias porque os seus corpos denunciam quem não são, quem não querem ser.

Que bom que o género é algo em que a maioria nem pensa, ou diminui a questões de igualdade salarial e trabalho doméstico. “Temos de começar por algum lado” dizem-me. Mas e quem morre? Quando é que falamos de quem morre? De quem se suicida e é trucidado por dentro por tudo o que tem fora?

Quando é que estas vidas vão valer a pena e as pessoas que têm o privilégio de não viver nesta angústia deixam de achar que se é assim porque se é doente, não se está bem ou porque “temos de aceitar o que Deus nos deu” (quando Deus é chamado ao barulho então tudo faz mais sentido).

Afinal de quem é a pena (castigo), ou a pena (simpatia)? A quem pertence a voz para falar nisto e porque é que eu vejo tanta gente a apropriar-se deste discurso? Eu sei, sou mais perguntas que respostas mas estou cansada de ouvir género em todas as palavras e de não saber mais lidar com isso. Não quero desesperar, não quero ser doente. Mas como é que eu lido com a violência do mundo em que habito por ser quem sou?

“Ai mas agora também tudo é violência”, “não se pode dizer nada que levam logo a mal”. Cansa-me explicar, estou sempre a explicar-me e as pessoas a não ouvirem. “Não achas que estás a dar demasiada importância a isso?” Talvez quando o cansaço levar a melhor de mim e eu não querer mais conviver com género, as pessoas percebam porque é que é importante para mim. Ou talvez não, e eu só me juntasse a quem este mundo já perdeu. Seria apenas mais uma pessoa ou, uma pessoa a menos.

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