Achas que é por seres lésbica?
23/11/2017
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«(…) Achas que é por seres lésbica? »,
Pergunta-me a minha irmã mais nova no decorrer de uma conversa.

Falávamos dos pais e da vida. Provavelmente nunca irei ter o casamento com que sonho. Mesmo que venha a ter muito dinheiro e possa pagar pela cerimónia que quero – pequena, privada, mas bonita e com o requinte que gosto nas coisas, nos locais e nos espaços – nunca será a mesma coisa – Não vão lá estar os meus pais, a sorrir sentados na fila da frente. A levar-me ao altar. A escolher o vestido comigo. Sei lá, activamente participativos nos momentos marcantes da vida. Ao contrário do que é suposto, o seu conservadorismo cresce e a religião cada vez tem mais lugar à mesa.

É ok ser lésbica, mas porque não caso, à mesma, com um homem? Que me pague as contas e me sustente, a mim e ao filho que eu gostaria de ter. Com uma mulher já não há lugar para festa. Celebra à vontade mas não estaremos presentes.

É ok ter filhos, se for com um homem, se não recorrer a meios artificiais.

Mas, posso ser lésbica à mesma; se, desde que, mas não contes com.

É muito fácil discutir na televisão estes assuntos e é muito fácil termos opinião sobre tudo quando não estamos a falar de nós – Vejo a minha vida pessoal a ser discutida e disposta numa bandeja, a servir argumentos.

No meu conto de fadas sou eu no palco e eu na plateia que chamamos família. Sou frequentemente comediante e plateia de amor. De noite envolvo os braços em volta de mim e sonho com o que me apetece. Concretizo o que me apetece.

Quando eu pus os olhos em cima daquela mulher eu já explorava e reflectia há dois anos a minha homossexualidade mas naquele momento, qualquer coisa floresceu dentro de mim. Não me esqueço da primeiríssima vez que a vi. Apressada, altivez presumida, alheia, triste. Continua a ser inexplicável, continuará a ser ou então eu irei entender no fim o significado disto. Ou então sempre soube e sempre se revelou na minha evolução – Tomasse o rumo que tomasse, o que quer que fosse, estava em mim. Se eu pudesse colocar em palavras é como se uma energia vinda dela me trespassasse a alma e se adormecesse nela.

Mas esta é a minha cruz, o meu pecado e a minha alma. Mais pesadas ou mais leves todos carregamos cruzes. E eu não sei se nesta história viveremos “felizes para sempre” juntas – Embora eu seja desde já feliz para sempre porque a tenho na alma – isso abafa o restante texto mas nem assim quero deixar de partilhar que a evolução das coisas, e bem, vai criando realidades bonitas de aceitação familiar e social mas eu venho partilhar um texto que retrata como a minha homossexualidade é triste (bem como ainda a de muitos). Mesmo que eu, por carregar o meu amor no peito, seja feliz para sempre. Como é e será solitária. De lados escolhidos e decisões duras que acolhi como minhas desde pequenina.
E não é a sociedade que me oprime (no meu sentir).

Não sou “Orgulhosamente Gay”: Duvido que alguma vez o seja porque eu não sou emocionalmente capaz de sentir orgulho num aspecto que divide corações. Que o meu pai respeita mas não adora. Que para a minha mãe é um desgosto. ponto. Tenho muito orgulho em mim, nas minhas conquistas – Não tenho orgulho neste bocadinho de mim que me define, que sou, que também sou.

A culpa não é minha. Nem dela. Na verdade a culpa não é de ninguém. Não estamos do lado errado e também não somos vítimas. Nós, sim nós, homossexuais. Não tenham pena de absolutamente nada porque nós não queremos as vossas lágrimas nem a vossa caridade.

Na verdade eu tenho tudo e não tenho problemas nenhuns graves: Calamidades, não passo dificuldades e tenho trabalho, certo. Podia ter uma casa melhor, podia ter um dote e mais apoios de começo de vida, podia ter dinheiro, e o carro emprestado, mas não posso amar quem amo e ter tudo isso ao mesmo tempo.

Então eu não quero nada – com ou sem amor nos braços porque o meu amor nasce e mora no peito, sempre.

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