O feminismo é de quem?
21/01/2018
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E se nos dias em que lutamos não sentimos que nos representam. Vamos?
E se nas manifestações não sentimos que temos lugar. Saímos?

No aniversário do movimento #WomensMarch e de milhares terem saído à rua, volta a realizar-se a mesma proeza. Ainda assim lembramos, nem sempre estamos juntxs, nem sempre concordamos, nem sempre sentimos que o espaço que é criado é também para nós nas muitas complexidades que somos e intersecções que temos.

Ontem participámos em dois eventos feministas, o Encontro Feminista 2018 da Esquerda Alternativa e no ciclo Mutiplas Descriminações da UMAR e na antevisão do 8 de Março, Dia Internacional da Mulher que está quase a chegar fiquei com a mesma sensação nos dois eventos.

Se não tivermos um determinado tipo de linguagem, se não soubermos um determinado tipo de saber teremos voz?

Não sabendo o que dizer, como dizer e se não temos voz, como falamos de nós, dos nossos problemas, do que nos preocupa?

No Encontro Feminista 2018 da Esquerda Alternativa, que começou com 40 minutos de atraso, estava uma mesa posta para quem ia falar e uma plateia. Perguntei-me porque é que chamaram à palestra que se seguiu de encontro. Falou-se com pompa e circuntância da mulher trabalhadora, de conceitos de feminismo socialista e liberal e ao mesmo tempo que tentava absorver tudo aquilo que me estava a ser atirado àquela hora da manhã estava também a pensar na quantidade de coisas que eu tinha de saber em antemão para compreender aquilo que estava a ser dito. O privilégio que eu teria de ter para estar ali a entender todas as coisas que estavam a ser partilhadas. Não me senti num encontro especialmente quando era esperado de quem quisesse participar na discussão se increvesse por boletim, se levantasse e fosse falar ao microfone que estava na mesa dos palestrantes. Não me senti com vontade de participar, não senti que pertencia ali e muito menos que aquilo fosse um encontro.

Quando falaram de mulheres trabalhadoras, e falaram muito, como sendo estas as pessoas que representavam, dos direitos das mulheres que não eram da classe média ou média alta, que tinhamos de lutar contra as opressões do patriarcado e do capitalismo eu olhei à volta e pensei: Onde é que elas estão? Poderiam essas pessoas estar aqui?

Na UMAR o cenário foi um bocadinho diferente, falava-se de discriminações múltiplas e convidou-se mulheres lésbicas e uma mulher tras. Neste caso as mesas estavam dispostas em círculo, muito mais ao jeito de uma tertúlia e muito mais ao meu jeito. Ainda assim, muitas vezes o discurso foi de que as pessoas não se sentiam discriminadas, falou-se de discriminação no trabalho, discriminação no espaço público e dentro de casa. Falou-se de violência física e psicológica de macro e micro agressões.

Perguntou-se: O que é que temos de fazer para nos sentirmos seguras?

E no fim das contas é isso mesmo.

O que é que eu escondo todos os dias de mim para não sofrer represálias? Qual é o nível de coragem que eu tenho de ter todos os dias para sair de casa preparada para lidar com as mil coisas que me podem acontecer por ser quem sou e apresentar-me da forma como me apresento? Podemos censurar quem não consegue fazer queixa de um empregador que discrimina? Podemos dizer que nunca deixamos por um minuto de ser ativistas para ser igual a todas as pessoas que não conseguem lutar contra quem oprime e discrimina? Em que contextos posso ser realmente eu, completa, complexa, em todas as minhas intersecções?

Para cada pessoa estas perguntas têm todas respostas diferentes mas para mim uma coisa é certa. No feminismo encontro a possibilidade de tranzitar por todos estes espaços. O feminismo dá-me acesso a elees e ao mesmo tempo ferramentas para poder ser eu na minha experiência, na minha linguagem, nos erros de gramática, nas calinadas no português nas mãos trémulas cada vez que tenho de falar em público e ainda assim ir. O feminismo ensina-me sobre experiência situada, fala-me da importância do contexto e da minha história enquanto válida. O feminismo diz-me que as contradições fazem parte da complexidade das coisas e que não tenho de ser só uma coisa. Posso ser tudo o que eu sou mesmo que seja muitas vezes dificil de integrar num discurso linear e claro.

Pode ser, posso ser.

por: Andreia Carvalho

O feminismo é uma arma que me ajuda a amar-me com mais força e saber que há sempre coisas que não sei e ajuda-me a aprender mais sobre as realidades de cada pessoa que luta ao meu lado em sororidade, em empatia, em humildade.

Este é o meu feminismo e é nele e com ele que eu consigo encontrar forças para continuar e para mostrar a cara em sítios mesmo sabendo que muitas vezes os outros me tenham como a outra.

A luta também tem de ter a nossa cara, os nossos nomes.

Alexa Santos

Alexa Santos

Depois de anos sem encontrar um espaço que pudesse chamar seu, Alexa criou o queeringstyle. No início uma página de Tumblr, hoje um espaço para pessoas que queiram falar, estar, partilhar. Não sabe muitas vezes parar porque, tudo o que faz vem do centro do peito. Gosta de fazer muitas coisas ao mesmo tempo, por isso é possível que se encontrem algures. Se sim, não deixes de dizer olá.
Alexa Santos