A importância de Trump.
01/08/2017
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Esta semana que passou vimos Trump (actual presidente dos EUA) a comunicar via Tweet que iria voltar atrás não só com uma promessa eleitoral que fez sobre proteger a comunidade LGBT como revogar a legislação passada por Obama no sentido de pessoas trans poderem alistar-se e servir no Exército do país que governa.

Falar sobre este assunto é difícil de tão complexo e de tantas formas que se pode pegar nele.

Decidi que não vou falar da necessidade ou não de um país manter as suas forças armadas. Não vou falar também da ideia da manutenção de fronteiras, segurança ou não de um país ou de para que é que serve ou não o Exército.

Hoje quero falar de porque é que estas politicas de Trump são importantes. No dia em que dizemos que já se fez tudo. Acordamos de manhã e ouvimos alguém LGBT dizer, não gosto que as pessoas LGBT se façam de diferentes porque enquanto se fizerem de diferentes então nunca seremos iguais. É nestas alturas que eu me lembro do Trump e na importância das políticas deste homem para o ativimo LGBT, para o ativismo pela liberdade de género, pela autodeterminação de género, pela liberdade sexual e de apresentação, representação e identidades não normativas.

A primeira coisa que penso quando leio afirmações de assimilação como: Somos todos iguais, não há nada de diferente, somos ‘normais’, lembro-me sempre de responder: Mas afinal, o que é que há assim de tão mau em ser-se diferente? Imagino que a resposta seja a politicamente correcta: Nada, cada um é como cada qual. No entanto o que verificamos é que nos discurso de todos os dias é que, muitas pessoas afirmam que ser igual é que é bom.

Eu pergunto, e para quem é diferente? Deve o mundo continuar a discriminar? É menos merecedor de aceitação? Quem tem o barómetro da diferença e pode dizer o que é aceitável ou não? Até onde é que o diferente pode ir sem ser mal tratado? Discriminado? Violentado? É que dizer que somos como a maioria hetero, cis, etc. ( Que sabemos que é tão diversa quanto a minoria ) estamos imediatamente a prescrever a maldição do que é diferente, imediatamente a dizer que o diferente é mau. Tanto que eu não posso ser aquilo que é diferente e afirmo que sou normal, igual a toda a gente (que mais uma vez, não sei bem quem são).

A segunda coisa sobre a qual é para mim importante reflectir é a ideia de humanidade. De pessoas enquanto todo, uno e indivisível. Para que é que as politicas de Trump são importantes perguntam vocês, para nos lembrar que a nós, pessoas LGBT é nos muitas vezes retirado o direito de sermos pessoas, com vários interesses, histórias de vida, profissões e carreiras. Lembra-nos que não temos ao nosso alcance todas as oportunidades que pessoas que não são LGBT têm.

Em Portugal talvez em várias áreas e profissões, muitas pessoas poderão dizer, ‘Eu nunca sofri discriminação no meu local de trabalho’. Eu pergunto-me qual será essa profissão e o que é que não fazes, não dizes para que assim seja e também em que zona do país te moves. E mesmo assim, muitas pessoas continuam a poder ter a experiência de privilégio no nosso país independentemente destas mesmas perguntas. Temos sorte, talvez algumas pessoas tenham.

No entanto, há outros países do mundo em que nada disto é possível o que me leva a pensar, onde ficam as minhas liberdades enquanto as pessoas noutros países, outros sítios do mundo ou mesmo do meu país não as têm?

É aí que vejo a importância das politicas de Trump.

Importantes para nos lembrar que a diferença não está na pessoa que é diferente mas num sistema que ordena que a igualdade se faça num regime padronizado baseado numa qualquer ideia de normalidade que nos é impingida desde cedo, para que nada fuja ao controle da ordem social e cultural. E não na aceitação de um outro que pode ser igual ou diferente de mim.

Importantes para nos fazer conscientes de que nada está ganho, nada está garantido. As melhoras de que falamos sobre a realidade em que vivemos existem efectivamente e ainda bem. Mas esta realidade não é um dado adquirido. E não é para toda a gente. Eu sei que o que acontece lá longe não nos toca por isso não é importante. Mas, o que Trump nos lembra é que não é só lá longe, é aqui, não só ali ao lado mas a nós que pode acontecer, que tudo o que temos como certo deixe de ser.

Quando às vezes me junto com outras pessoas activistas e nos lamentamos por sentirmos que o movimento está mais curto que comprido, mais brando que activo, dá-me medo. Porque quando retiramos do activismo premissas de luta que acontecem devido à despolitização do movimento, à capitalização das nossas imagens, enquanto estamos a falar da obtenção ou manutenção dos nossos direitos eu só posso ter medo porque a pergunta seguinte é até onde é que isto pode ir e onde é que nós vamos acabar?

Queering style

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O queeringstyle é um espaço queer feminista, que tem como missão a visibilidade de discursos, de identidades variadas para que pessoas possam falar de si, estar e ocupar espaço.
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