A forma da manipulação
16/02/2016
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A manipulação vem de diferentes cores e em diferentes formas. Esconde-se nas relações sejam estas da natureza que forem. Esconde-se sobre a forma de liberdade. A manipulação vem de diferentes pessoas. As que mais amamos. Com quem namoramos. Melhores amigues. A nossa famílias. As ex relações. Temos tendência a não ver ou a não querer ver – e não há nada de errado nisso. Somos pessoas e queremos muitas vezes ser abraçadas sem reconhecer que esse pode não ser um porto de abrigo. A manipulação vem para nos sugar a energia. As amizades. O que gostamos de fazer. Vem para nos dizer que não é okay sermos nós próprios. Mas é. O amor nunca é desculpa para nos controlarem. E este post é para dizer: não há nada de errado em seres quem queres ser. Não há nada de errado em quereres estar sozinhe. Em não quereres fazer sexo. Não há nada de errado em pedires espaço – da mesma forma que não há nada de errado em estares carente. Uma depressão não é motivo para seres manipulade. O ambiente em casa também não. A preocupação não se deve confundir com o te quererem controlar. Não vás – não fiques. Não cantes – não saltes. É perigoso. Perigoso é darmos de nós a quem nos retira o que somos. Perigoso é não termos apoio para percebermos que somos pessoas bonitas, autônomas e com força para dar continuidade ao que estamos a construir mesmo que tenhamos que deixar quem nos é importante para trás.

Costumo estar rodeada por pessoas que respeitam isto que digo – o que defendo. Costumo estar rodeada por pessoas que não se importam com o que os outros têm no meio das pernas. Que respeitam os pronomes. Que não dizem que é preciso emagrecer. Que não me julgam pela quantidade de pessoas com quem já dormi. Estou rodeada por pessoas maravilhosas – que me permitem ser eu própria e permitem outres de serem eles próprios. Que me fazem sentir segura e protegida. Vivo numa casa onde tudo é motivo de celebração: os envolvimentos; os não envolvimentos. As orientações sexuais. As identidades de género. Vivo numa casa onde as pessoas são genuinamente amadas. Quando me apercebo que existe um mundo cruel lá fora, sinto-me egoísta. Reconheço que esta sensação de proteção que acontece dentro de quatro paredes não acontece em outras mil. Que tenho sorte. Que não preciso de esconder os meus amores. Que ninguém me julga por ter pelos nas pernas e pernas que são só tatuagens. Que as pessoas negras que aqui vivem falam sobre coisas que nós brancos não sabemos – e nós ouvimos. Que as pessoas trans que aqui vivem contam coisas que nós não sabemos – e nós ouvimos. Que eu conto coisas que não sabem – e me ouvem. Ouvimos como quem ouve, como quem ama. Com o copo de vinho, um bolo e um abraço no fim. Lá fora não se ouve como quem ama. Com copos de vinho, bolos e dois abraços. Lá fora não é cá dentro e faz frio. Faz frio quando quero dar a mão a mais que uma pessoa. Faz frio quando se sofre racismo, transfobia, homofobia ou polifobia. E o lá fora é muitas vezes o nosso dentro. Que vem de amizades. Ex relacionamentos. Familiares. Pessoas que amamos. Que nos querem manipular – porque nos “amam”. Esta casa não é bonita para quem fica à janela. Depois chovem mensagens; chamadas; depois chovem mais manipulações: só te dás com iguais a ti. O que te fizeram? O que fazemos? Deixamos viver. Amando.

A tua identidade de género não é motivo para seres manipulade. O teu peso também não. O teu desejo sexual também não. A tua cor, o que defendes e o que te apetece fazer com o teu corpo e a tua vida não dão a ninguém o direito de te fazer sentir mal. A pessoa que amas e te prende com jogos psicológicos, tentativas de suicídio, ameaças e agressão não o pode fazer. Estar com alguém não é um favor. Estar com alguém não é ter a possibilidade de sobre a intenção de proteger e o pretexto de amar, te privar. As amizades nem sempre vão ser para sempre e nem sempre te vão dizer o que mereces ouvir. A essa pessoa que te diz que não te vai respeitar o pronome ou o facto de não quereres nenhum; aquela pessoa da família que no Natal repete que não deves comer mais doces por causa do teu peso; ao teu/tua namoradx que diz que tens sorte por teres alguém só por não seres uma pessoa branca. Aos teus amigues que dizem que ser poli é seres promiscue. A essas pessoas – que fiquem do lado de fora da nossa janela. Longe do meu blog. Ainda mais longe do meu coração. Vocês que entrem, que nos procurem. Por comentários no blog. Por mensagens. Existe quem esteja aqui com amor, um copo de vinho, bolos coloridos e dois abraços. Ou mais, se forem precisos mais. Existe quem ache que as pessoas são bonitas – exatamente por o serem. Tu és definitivamente uma pessoa bonita e não deixes que te digam o contrário. Muito amor.

Marta Guerreiro

Artigo originalmente publicado em http://multipliqueioamor.blogspot.co.uk/2015/12/a-forma-da-manipulacao.html

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