A culpa
24/06/2016
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Lembro-me daquele dia na escola em que fui convidada para participar naquele jogo divertido.
Não era suposto fazer mal, não era suposto fazer sentido.
Era só um jogo… divertido.

Afinal não era só um jogo.
Ou pelo menos não para eles.
Talvez uma tentativa de atear o fogo?
Foi uma “cilada”.
A que um dia me encheu de lágrimas …
E hoje me dá poder!
São as experiências que nos fazem erguer, corrigir os erros e aprender.
São estas “ciladas” que nos dão poder, porque nos fazem crescer.

Eu era apenas uma adolescência na descoberta do meu corpo.
Era desinibida e inocente. Inocente apenas no sentido em que achava que podia fazer e dizer o que quisesse sem consequências.
Não enxergava o mundo como hoje. Via-o pacífico e sem preconceito.
Então pronto… eu e umas amigas decidimos ir jogar um jogo com (na maioria) rapazes da nossa turma.

– Muito resumidamente, o jogo consiste em dar beijos e essas coisas de adolescente dos anos 90 –
A “cilada” capturou-me num ápice.
Bastou uns beijos e uns apalpões.
E ela torturou-me durante anos.

Primeiro foram eles…
Depois vieram elas…

Como se aquilo resumisse tudo o que eu sou… tudo o que eu algum dia fui.
Como se aquele jogo, aquela brincadeira, aquele acto de pura liberdade, fizesse de mim menos digna.

Eu era a puta, eu era a vaca.
Eu era aquela que todos olhavam de lado…
Todos queriam foder, mas ninguém queria amar.

Provavelmente achavam-me promíscua…
Mas a criança ainda nem sequer sabia se gostava de homens ou mulheres!
Eu nem sequer sabia que podia simplesmente nunca vir a amar… ou amar múltiplas vezes ou múltiplas pessoas.
A culpa transformou a minha mente.
Ela mudou o meu corpo.
Conseguiu apoderar-se de mim de maneira a que as minhas acções e atitudes fossem sempre ao seu encontro.

A culpa.
Ela gere a nossa vida.
Faz-te sentir menor.
Faz-te habituar a sentir sofrida.

Habituar ao sentimento
De que tudo o que sentes por dentro
Faz de ti o julgamento
Essa culpa parecia infinita mas um dia começou a desvanecer e hoje ela já não mora cá dentro.
Vocês que um dia me transformaram num ser pequeno e quebrado, contribuíram para que hoje, esse ser esteja composto e reforçado.
Hoje luto para que mais nenhuma menina se sinta culpada.
Luto para que eles nunca mais nos julguem.
Para que eles não nos acusem.
Para que eles não nos culpem.
Para que eles não nos violem.
Para que eles não nos agridam.
Para que eles não nos matem.

Hoje luto pela morte do machismo.

Porque foi ele que me fez sentir culpada.

E foi o feminismo que matou a minha culpa.

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