12 Pessoas de Costas
24/02/2016
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“12 Pessoas de Costas”
de Ana Miriam e Helena Valente


O projecto “12 Pessoas de Costas” é um convite à reflexão sobre o género enquanto construção social.

As pessoas retratadas foram abordadas na rua e convidadas a responder ao “Bem Sex Role Inventory”. Neste inventário é apresentada uma série de traços de personalidade tradicionalmente considerados masculinos ou femininos, aos quais as p¬essoas devem atribuir o seu grau de identificação. Os resultados do teste dividem os perfis em feminino, masculino e andrógino, segundo uma maior identificação com traços associados a um dos géneros ou, no caso do perfil andrógino, por uma identificação com traços associados a ambos os géneros.

O resultado desta intervenção é uma série de cartazes em que propomos algumas pistas para a construção da identidade destes 12 indivíduos anónimos. Procuramos assim questionar alguns dos estereótipos de género que quotidianamente limitam mulheres e homens na expressão das suas individualidades.

O desconhecido é aqui apresentado como um enigma cuja complexidade se vê diminuída através de um rótulo e de uma série de ideias que lhe estão associadas. A construção e o reconhecimento do género são apontados como aspectos essenciais desse processo de simplificação e como bases para a interacção social.

O projecto foi desenvolvido no Porto e o resultado foi exposto pela primeira vez nesta cidade, na fachada do Cinema Batalha.

Podem apresentar-se e falar um pouco do vosso percurso?

AM: Somos duas amigas de longa data. Eu sou a Miriam. Sou fotógrafa e formadora na área da fotografia. Interesso-me pelo espaço público e pelas suas vivências há já algum tempo e cada vez mais procuro que o meu trabalho fotográfico reflita também algumas das minhas preocupações sociais.

HV: Eu sou a Helena, sou psicóloga e trabalho sobre as questões da festa e da noite dando especial atenção ao uso de substâncias psicoactivas nestes contextos. Neste momento eu e os coleg@s do projecto onde trabalho, o CHECK!N, estamos a desenvolver um estudo exploratório sobre as desigualdades de género na noite tendo como objectivo desenvolver respostas adequadas às especificidades das mulheres que frequentam estes contextos. 

Como aconteceu a ideia para este projeto?

AM: Aconteceu como resposta a um desafio do Festival Feminista e como meio de darmos forma a preocupações que já andavam nas nossas conversas há bastante tempo.

HV: Este projecto também permitiu reunir valências e know-how das duas.

O que é que esperavam com a realização desta exposição, que aconteceu na rua?

AM: Esperávamos chegar a mais gente e a todo o tipo de gente, não apenas pessoas que já têm interesse nestas questões. Mas na verdade ainda temos muito que praticar em matéria de colagem de cartazes! É que os que colamos duraram muito pouco tempo. Foi uma exposição muito efémera… Mas vamos voltar à carga!

Tiveram algum feedback, o que disseram as pessoas?

AM: Na verdade este projecto teve dois momentos: o da abordagem das pessoas na rua e o da colagem dos cartazes. Depois ainda teve uma curta vida na rua, da qual não temos feedback. Quando fizemos o inquérito ficamos agradavelmente surpreendidas com a receptividade das pessoas, que se mostraram desde logo muito disponíveis para responder a um inventário relativamente longo e serem fotografadas.

Relativamente à colagem, tivemos reacções bastante positivas, de pessoas que acharam que o projecto levantava questões pertinentes e que merecia mais exposição. E é isso que estamos a pensar fazer, expor novamente, noutro contexto e talvez aí consigamos perceber melhor a reacção das pessoas.

Porquê de costas?

AM: Por várias razões. Uma é conceptual e a outra é prática. Como imaginas, é muito mais provável que uma pessoa se deixe fotografar de costas do que de frente. Mas a principal razão, que esteve na origem da ideia inicial, é sugerir que precisamos de muito pouco para formularmos ideias pré-concebidas sobre as pessoas à nossa volta. Isto parte aliás da nossa própria experiência. A experiência de ir na rua e observar pessoas que caminham à minha frente, das quais não sei nada, mas sobre as quais posso tecer uma série de considerações baseadas no vestuário, na forma física, no andar… e daí saltar para a classe social, a idade e o género, que neste trabalho é a questão central. Acho que é natural no ser humano criar narrativas a partir de muito pouco, mas é preciso encarar essas construções de uma forma crítica, porque facilmente caímos no estereótipo e ignoramos o indivíduo. O retrato normalmente procura chegar à individualidade, estes acentuam algumas das características mais susceptíveis de categorização.

Queríamos agradecer terem aceite partilhar o vosso trabalho connosco, e saber: o que vos interessou em participar na plataforma?

AM: É sempre muito positivo podermos divulgar este trabalho, que, para já, ainda chegou a poucas pessoas. Achamos interessante porque partilhamos pontos de vista sobre a fluidez do género e sobre necessidade de desconstruir expectativas que nos limitam, mas ficamos surpreendidas pois não estávamos à espera de ver este trabalho ligado ao universo da moda. E foi uma surpresa boa, porque é ver o trabalho fazer o seu caminho através de outras pessoas. Nós também agradecemos!

Diriam que são feministas?

HV: A primeira palavra que me vem à cabeça quando leio esta pergunta é: obviamente. Sou feminista porque sou mulher, porque acredito que todos devem ter os mesmos direitos, porque sou mãe de um rapaz e não quero que ele cresça numa sociedade que lhe incute uma visão de masculinidade baseada na opressão e na desvalorização da mulher. Sou feminista porque estou cansada de uma sociedade misógina que a cada momento me relembra, através da publicidade, das notícias, que devo ser uma mãe extremosa, uma dona de casa organizada, uma profissional competente, uma amante fogosa. Devo ser bonita, magra, depilada, inteligente, obediente…  Em conclusão sou feminista porque sou humana.

AM: Claro que sim. Ser a favor da igualdade de género numa sociedade que ainda condiciona a liberdade das mulheres com base no seu género, significa ser feminista. Acho que há muita gente que não sabe que o é!

Têm algum projeto para o futuro que possamos saber?

HV: Neste momento temos interesse em replicar esta exposição num outro contexto. Para já a nossa atenção está focada em conseguir a verba necessária para prosseguir com esta ideia. Depois logo veremos…

Qual é a melhor forma das pessoas entrarem em contacto com vocês?

HV: Através do e-mail do projeto: 12pessoasdecostas@gmail.com.

O site do projeto pode ser encontrado aqui.

 

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O queeringstyle é um espaço queer feminista, que tem como missão a visibilidade de discursos, de identidades variadas para que pessoas possam falar de si, estar e ocupar espaço.
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